O futuro dos Eventos não está em fazer mais
A impressão que eu tenho é que estamos todos cansados demais, e isso está impactando nossa vida e nossos negócios de forma concreta.
Estamos sempre tentando dar conta de mais alguma coisa, responder mais rápido, produzir mais, entregar mais. E, quando estamos exaustos, começamos a terceirizar partes importantes da vida. Na relação com os filhos, por exemplo, isso aparece quando as telas, os jogos, as redes sociais e as séries passam a ocupar o lugar de um jantar compartilhado, de ouvir uma história do que aconteceu na escola. Não porque deixamos de nos importar, mas porque estamos correndo o tempo inteiro.
No trabalho, algo parecido também acontece. A pressão por resultado, a crise financeira e a sensação constante de que estamos sempre devendo alguma coisa vão nos colocando em um modo automático. Vamos entregando o que precisa ser entregue, mas muitas vezes sem tempo para pensar se aquilo ainda faz sentido. E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes neste momento: isso ainda faz sentido? Para quem? E o que, de fato, estamos tentando construir?
Foi pensando nisso que voltei ao conceito de ikigai, uma filosofia japonesa ligada à ideia de razão de ser. De forma simples, ele fala da relação entre aquilo que gostamos de fazer, aquilo que fazemos bem, aquilo de que o mundo precisa e aquilo que também pode se sustentar financeiramente. Eu gosto dessa ideia quando ela deixa de ser uma frase bonita sobre propósito e vira uma pergunta prática sobre coerência.
Acompanhei de diferentes formas alguns eventos ligados a inovação, negócios e conhecimento, e isso me fez pensar muito sobre o formato dessas experiências. Talvez porque uma parte importante do meu trabalho, e também da minha busca pessoal, esteja ligada à forma como as pessoas aprendem. Essa foi uma dor importante na minha vida. O sistema de ensino nunca foi muito adequado para a minha forma de aprender. Até o final do ensino médio, precisei me esforçar demais para colher resultados fracos. Com o tempo, isso virou uma busca pessoal: encontrar formas diferentes e mais adequadas de aprendizagem.
Eventos trazem uma excelente oportunidade de criar ambientes de aprendizagem e conexão. Mas muitos eventos de conhecimento ainda seguem uma lógica bastante conhecida: uma ou mais pessoas no palco transmitindo conteúdo para uma plateia grande, que assiste de forma passiva. A partir daí, parece que quanto mais palcos, mais palestrantes e mais temas na programação, melhor será a entrega.
Mas será mesmo?
Minha percepção é que as pessoas já não têm tanta condição de absorver tanta informação. Basta perguntar o que alguém levou de determinado evento para perceber que, muitas vezes, pouca coisa fica de fato. Não é o número de palestras que necessariamente vai produzir um grande insight, uma decisão melhor ou uma mudança concreta no negócio.
Sinto que faz falta, depois de consumir um conteúdo, ter espaço para conversar sobre aquilo. Para assimilar, discutir, concordar, discordar e fazer perguntas. Falta dar mais voz para quem está na plateia, para que cada pessoa possa se relacionar com o que foi dito e fazer as suas próprias conexões com a vida, com o trabalho, com o negócio e com o momento que está vivendo.
Isso não quer dizer que palestra, painel e palco não tenham mais valor. Têm. Mas talvez eles não precisem ocupar sempre o centro da experiência. O que me interessa pensar é outra coisa: se as pessoas estão cansadas, sobrecarregadas e, ao mesmo tempo, precisando aprender, decidir, se conectar e construir negócios, que tipo de experiência um evento deveria criar?
Um exemplo prático é o South Summit Brazil. É um evento de grande relevância para Porto Alegre. Movimenta a cidade, atrai pessoas de diferentes lugares, ativa a economia e coloca inovação, negócios e futuro em uma conversa importante. Mas, nas conversas que tenho feito, a motivação para ir ao evento não parece estar apenas nas palestras. A maioria vai para fazer conexões, gerar negócios, encontrar parceiros, ampliar contatos profissionais e circular em um ambiente onde as coisas podem acontecer.
E se, em alguns casos, as oportunidades de conexão fossem tratadas como o centro da experiência, e não como algo que acontece nos intervalos? Não estou falando de simplesmente colocar mais momentos de networking na programação. Estou falando de criar situações de encontro, que ajudariam muito quem não tem tanta facilidade de se aproximar e iniciar conversas.
Eu sei que isso é complexo. Exige rever o evento inteiro: formato, programação, circulação, comunicação, tecnologia, curadoria, patrocínio e até a forma como as pessoas entendem o valor daquela experiência. Dá trabalho. Mas talvez seja justamente esse o ponto.
Talvez os eventos precisem menos de pequenas melhorias em formatos antigos e mais coragem para repensar sua lógica.
É aqui que o ikigai volta a fazer sentido para mim. Não como um conceito abstrato, mas como uma forma de perguntar: o que nos move de verdade? O que sabemos fazer bem? Que necessidade real existe ao nosso redor? E como isso pode se sustentar?
Aplicando isso aos eventos, talvez a pergunta deixe de ser “quantas palestras cabem na programação?” e passe a ser “que tipo de formato precisa existir agora?”
Para mim, essa é uma discussão importante porque eventos não são apenas programação, palcos e credenciais. Eles são ambientes de aprendizagem, conexão, decisão e transformação. Mas, para isso, precisam ser pensados a partir das pessoas, do contexto e daquilo que realmente se quer gerar.
Eu não tenho uma solução pronta. Mas tenho cada vez mais vontade de discutir esse tema com quem também sente que existe um espaço enorme para criar novos caminhos.
Talvez seja hora de repensar nosso ikigai também no mundo dos negócios. Construir menos a partir da repetição automática de formatos e mais a partir daquilo que nos move, daquilo que as pessoas precisam neste momento e daquilo que realmente pode gerar valor.
Só que, para fazer isso, precisamos de tempo. Não apenas tempo para executar. Tempo para pensar, revisar premissas, escutar quem vai participar, entender o contexto e ter coragem de mudar o modelo quando ele já não responde mais ao que as pessoas realmente precisam.
Porque talvez o próximo passo dos eventos não esteja em fazer mais do mesmo com uma entrega melhor. Talvez esteja em voltar algumas casas e perguntar, com honestidade, o que realmente precisa ser criado agora.
Quero muito conversar mais sobre isso com quem também sente que os eventos podem ser pensados de outras formas. O que você tem percebido?