A pressa está nos afastando das melhores respostas
Tenho pensado muito sobre essa cultura da extrema produtividade: dar conta de tudo, viver com pressa para fazer mais, ter mais resultado, responder rápido ao e-mail, à mensagem no WhatsApp, nas redes sociais…
É valorizada aquela pessoa sobre quem os outros dizem: “Nossa, não sei como ela consegue fazer tanta coisa. Não para nunca. É uma máquina.” Exato. Não para nunca. E, se você tem uma conversa um pouco mais profunda com essa pessoa, percebe que existe ali uma grande desconexão. Ela virou, de fato, uma máquina. Está sempre respondendo a uma demanda externa: do trabalho, da família, dos amigos. Não existe o tempo do silêncio para se ouvir e entender o que realmente está sentindo que deveria fazer.
Há muitos anos, o trabalho do físico Marcelo Gleiser tem me tocado. Lembro como se fosse hoje de uma conferência do Fronteiras do Pensamento, em 2022, em que ele falava sobre a passagem do tempo e terminava trazendo o conceito de religare. Foi um daqueles momentos em que uma ideia junta pontas soltas e dá forma a algo que eu ainda não sabia nomear.
O religare que eu registrei naquele momento era esse processo de reconexão do humano com a natureza e com o céu. O ser humano no centro disso. Imagine como um grande feixe de luz que sai do centro da Terra, atravessa o seu corpo e chega até o céu.
Agora vamos para outro momento: 2024, durante a gravação de uma entrevista com o escritor moçambicano Mia Couto, por quem tenho profundo carinho e admiração e que tive o prazer de encontrar algumas vezes. Lembro dele contando que, quando criança, o pai o levou para ver um rio pela primeira vez. Mia ficou completamente sem palavras diante daquela beleza e imensidão, sem entender como era possível aquilo existir. Seu pai falou naquele momento: “Mia, essa é a tua igreja.”
No final das contas, era também disso que Marcelo Gleiser falava em sua conferência. De alguma forma, os dois apontavam para a mesma coisa: existe uma dimensão de escuta que não nasce da pressa, nem da resposta imediata, nem do excesso de estímulo. Muitas respostas que buscamos dentro de um templo sagrado, no aconselhamento de outra pessoa, em uma inteligência artificial, em uma opinião rápida ou em alguma solução externa talvez precisassem ser buscadas, antes, nesse lugar de silêncio em que conseguimos retirar o excesso de ruído e perceber com mais clareza o que já estava ali.
Só que a pressa, a correria, a tecnologia cada vez mais próxima e a natureza cada vez mais distante da vida nas grandes cidades fazem com que a gente viva em constante interrupção e desconexão. Ou passe a acreditar que algo ou alguém pode nos dar uma resposta mais rápida. Com isso, paramos de procurar as respostas dentro da gente, ou nesse lugar que criou o rio que tanto impressionou Mia Couto naquele momento.
Que tempo temos deixado na nossa vida para nos reconectarmos com a gente, com a natureza e com o céu?
Quando estamos fora do nosso centro, somos muito mais facilmente manipulados, porque tendemos a ceder à pressão e agir sem pensar. Os antigos sábios falam: pause e só depois aja. Dê esse tempo para retirar as interferências externas e ver o que sobra. Só depois disso faça o que precisa ser feito.
No mundo dos negócios, essa questão é menos abstrata do que parece. A pressão constante por resposta, entrega e performance pode até produzir velocidade, mas nem sempre produz boas decisões. Muitas vezes, ela reduz a qualidade da escuta, encurta o pensamento e nos faz confundir movimento com avanço.
Domenico De Masi já falava do ócio criativo. E sabemos: a solução normalmente não vem no momento da pressão. É quando você relaxa, sai daquele assunto, que ela chega. Pode ser em um parque brincando com os filhos, tomando banho, lavando louça, dirigindo, nas férias. Ela vem quando você dá espaço.
E, para fechar, voltamos à nossa conexão com a natureza. A natureza nos mostra os ciclos que ela tem: primavera, verão, outono e inverno. Cada ciclo cumpre uma função e produz um resultado diferente. Queremos colher frutos o tempo todo, mas esquecemos que, para isso, é importante adubar a terra, plantar e esperar crescer para depois colher.
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para quem cria, lidera ou empreende: estamos dando tempo ao que queremos ver crescer?
Foto da capa: registro de um dos meus momentos de busca por respostas no lugar onde mais me conecto: diante do mar.