Estar inteiro para oferecer o melhor: o que aprendi nos bastidores de eventos
“A vida não é para ser útil. A vida é fruição. A vida é uma dança.”
Ailton Krenak
Quem trabalha com comunicação e organização de eventos conhece bem o ritmo dos bastidores. É um universo regido pelo relógio: prazos de entrega, cronogramas calculados, compromissos protocolares, deslocamentos, ajustes de última hora e uma ansiedade permanente para que tudo aconteça bem e no horário previsto. Somos, por excelência, operários da aceleração urbana.
No entanto, duas experiências recentes quebraram totalmente a minha lógica do tempo e me fizeram olhar para o trabalho, e para a vida, a partir de outra perspectiva. Recebi, em um mesmo evento, Ailton Krenak, liderança indígena, filósofo, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras, e Adana Kambeba, médica formada pela UFMG, cuja trajetória articula medicina ocidental, saberes ancestrais e a experiência de seu povo Omágua-Kambeba.
O que me chamou atenção nos dois foi uma escuta muito precisa do próprio corpo, do próprio limite e do próprio ritmo. Ambos demonstraram uma clareza impressionante sobre a necessidade de cuidar de si para, então, conseguir entregar o melhor aos outros.
Vou contar duas histórias para contextualizar.
Busquei Krenak no aeroporto e o plano inicial era seguir direto para o local do evento. No caminho, ele me disse que precisava passar no hotel. O que ele não sabia é que estávamos a apenas duas quadras dali. Expliquei que havia compromissos antes da palestra principal, horários organizados, equipe esperando, mas ele insistiu que precisava daquele tempo. Com o coração na mão, concordei e o deixei lá.
Combinei um horário para sairmos, e ele acabou atrasando quase meia hora. Apesar do meu receio, chegamos a tempo de cumprir toda a agenda. Existe uma diferença entre irresponsabilidade e presença. E ali, claramente, o que estava operando era presença. A cena me fez pensar na crítica que Krenak faz à vida reduzida à utilidade. Naquele momento, o recolhimento não parecia um capricho, mas uma escolha consciente de amenizar o ruído da viagem antes de falar para o público.
Em outro momento do mesmo evento, fui receber Adana Kambeba. O voo dela foi longo e sofreu atrasos. Como sua participação aconteceria apenas no dia seguinte, a convidei para um jantar com outros palestrantes e convidados. Ela agradeceu, mas disse que estava cansada e precisava ir para o hotel se recuperar. Queria estar bem para as pessoas no dia seguinte. Caso contrário, não conseguiria entregar o que elas precisavam.
Ao pensar sobre essas duas experiências, lembrei do trabalho da jornalista Florence Williams, autora de “The Nature Fix”. Williams investiga como a vida urbana, com seu excesso de estímulos, ruído e demanda permanente de atenção, pode afetar o cérebro, o corpo e a saúde mental. Em contraponto, reúne pesquisas sobre como o contato com ambientes naturais pode reduzir o estresse, restaurar a atenção e favorecer a regulação emocional.
Talvez essas duas cenas tenham me chamado tanta atenção justamente por isso: elas mostravam, de forma clara, a capacidade de escutar o próprio corpo como forma de restaurar e preservar a energia necessária para estar inteiro diante dos outros.
O mercado de eventos muitas vezes valoriza exatamente o oposto: disponibilidade permanente, excesso de interação, agenda corrida, presença contínua. O problema não é trabalhar sob pressão. Em eventos, isso muitas vezes faz parte. O problema é quando o cansaço deixa de ser um sinal e passa a ser tratado como parte normal da entrega.
Enquanto muitos de nós aprendemos a ignorar continuamente os sinais do corpo em nome da produtividade, Krenak e Adana pareciam operar sob outra premissa: é preciso estar inteiro para oferecer o melhor de si.
Essa postura me trouxe um aprendizado importante.Algumas das pessoas que mais me marcaram durante todos esses anos trabalhando com eventos eram justamente aquelas que entendiam a importância de se preservar.
Levando isso de volta à cena dos eventos, talvez seja preciso olhar para o convidado de forma mais integral, e não apenas pelo resultado que ele pode gerar, pela agenda que pode cumprir ou pelo número de compromissos que conseguimos encaixar. No fim, o que importa não é ocupar cada intervalo. É criar as condições para que aquilo que será entregue ao público tenha presença, qualidade e verdade.
O recolhimento que presenciei no hotel não era distanciamento nem descaso. Pelo contrário. Era a forma que eles encontraram de estar, de fato, presentes.